Um vilão chamado cinomose



Quando Cibele entrou na sala de internação da clínica veterinária, viu Luna deitada sobre um colchonete em um dos leitos para cães com doenças contagiosas. Dormia e parecia estar confortável, embora estivesse conectada a uma linha se soro que fornecia continuamente soluções e medicamentos pela veia de uma das patas. Cibele notou que Luna não estava mais de fralda, sinal de que a diarreia assustadora dos últimos dias havia cedido. Foi por causa da diarreia que Cibele foi consultar sua cachorrinha com a Dra. Ana.


- E então doutora, como a Luna passou a noite? Ela vai sair dessa, não vai?


Dra. Ana se aproximou do leito convidando Cibele a se aproximar também, em silêncio, como se quisesse mostrar algo sem acordar Luna. Então Cibele notou que enquanto dormia, Luna contraía de forma ritmada uma das patas, balançando todo o corpinho.


- Ela está com soluço doutora?

- Não Cibele, são espasmos, significa que o vírus da cinomose atingiu o sistema nervoso.


Cibele ficou desconcertada, sem entender o motivo de um ser tão amável ter de vivenciar uma doença cruel como a cinomose. Ao mesmo tempo, se sentia culpada por não ter levado Luna para receber a terceira dose da vacina polivalente. Passaram-se ainda 7 dias até que Luna tivesse alta e pudesse voltar para casa, fazendo parte de uma pequena porcentagem dos cães que sobrevive à cinomose.


A cinomose é uma das doenças infecciosa que mais mata cães em todo o mundo e afeta principalmente filhotes que ainda não completaram o esquema de vacinação e idosos, que podem apresentar uma resposta imunológica ineficaz. A doença causa no sistema nervoso lesões semelhantes às causadas pela esclerose múltipla que acomete seres humanos, embora seja transmitida por um vírus que afete apenas cães entre os animais domésticos.


A transmissão se dá pelo ar e pelo contato com animais, objetos e ambientes infectados. Inicialmente, é possível que o cão não apresente sintomas ou apresente sinais bastante genéricos, como tosse, secreção ocular, conjuntivite, bolinhas com pus na pele da barriga, diarreia, vomito, falta de apetite, prostração, febre e hiperqueratose (espessamento da pele) no focinho e nas “almofadinhas” das patas.


Após a fase inicial, é comum surgirem sinais neurológicos, como espasmos, tremores, convulsões, uivos, choro e até paralisia. Isso acontece porque o vírus, ao atingir o sistema nervoso, destrói a mielina, material que funciona como capa isolante para os neurônios, assim como os fios elétricos são revestidos por material isolante para evitar curto.


O diagnóstico é feito com base nas informações do tutor (histórico de vacinação incompleta ou contato com cão doente, por exemplo) associadas a exames laboratoriais.


Com o diagnóstico fechado, inicia-se uma batalha contra a doença, onde vet e tutores se unem para cuidar no pet. Neste momento, o acolhimento da família pela equipe médica é muito importante, bem como a clareza das informações passadas em cada consulta ou visita ao cão internado.


O tratamento é realizado de acordo com os sinais clínicos apresentados pelo paciente, além de prevenção contra infecções oportunistas, controle de dor, nutrição reforçada e conforto.


Sobreviver à fase aguda desta virose é uma vitória, contudo sequelas neurológicas podem se estabelecer. Entre elas, podem ocorrer espasmos, convulsões, alterações de comportamento, de locomoção e até paralisia em diferentes graus.


Daqui para frente, uma série de terapias podem ajudar a controlar e até eliminar estas sequelas, como é caso da terapia com Células-Tronco que tem demonstrado excelentes resultados, inclusive permitindo que animais completamente incapazes de se levantar voltem a se locomover.


A Luna representa muitos cães que enfrentaram e venceram a cinomose junto com suas famílias e equipes veterinárias. Se você sabe de algum cão com sequelas de cinomose, compartilhe esperança com seus tutores e ajude a compartilhar conhecimento a respeito da Medicina Veterinária Regenerativa.

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